Porque eu sempre fui conhecida por julgar muito as pessoas. E sempre soube, também, que para se julgar, só é necessário estar fora do jogo.
Uma pessoa solitária nunca se encontra em jogo algum. Logo, sendo eu essa sozinha, é muito fácil julgar. Pense em como me encontro em uma situação cômoda. Observo tudo daqui de cima, desse cume longínquo, e tiro as minhas próprias conclusões. Eu condeno você, eu lhe aprovo, eu discordo de suas atitudes. Simples. Sinto-me como Deus. Só não tenho o poder da criação. Estando aqui em meu lugar, a vergonha não me encontra. E se me encontra, ela não me limita e não me atinge.
Quando abro as vidraças, a brisa sussurra-me palavras que trazem a ira. A audaciosa diz-me que tudo o que eu faço – ou o que nada faço, no caso –, só me é prejudicial.
- Mas que pilhéria, dona Brisa. Estás a me julgar também.
A tola crê em sua razão e prossegue em sua análise:
- Minha querida, se eu lhe perguntasse sobre a sua vida, o que me diria? Se eu quisesse saber dos livros que andou lendo, das músicas de que mais gosta, o que me responderia? E quais foram seus amores? Já aprendeste com algum erro? Ou crê que nunca tenha errado? Com o receio do desconhecido, não vives e não ousas arriscar. Optaste por parar na vida, entretanto, o tempo não parou por ti. Hás de discordar-me?
Então seguiu seu curso e nunca mais retornou.
E eu continuo aqui com meus medos e meus julgamentos.
(Milena Buarque)
Para 23ª edição visual do Projeto Bloínquês.
